quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

O INCRÍVEL HOMEM QUE ENCOLHEU, de Richard Matheson


Em meio à grande oferta de novos livros de terror (90% sobre vampiros, menos da metade propriamente de "terror"), é raro aparecer um livro que desperta a vontade de comprar e ler na hora, ficando em primeiro lugar na lista de desejos literários. Para um fanático pelo gênero, qualquer novo livro de Richard Matheson é necessariamente um desses fura-filas. Ainda mais quando trata-se de um clássico nunca antes publicado no Brasil, considerado por Stephen King como um dos dez maiores livros de horror da história (bem, ao menos ele fez isso quando escreveu Dança Macabra em 1981, mas duvido que tenha tirado o livro de sua lista dos dez mais).

Estou falando de O Incrível Homem que Encolheu, da Editora Novo Século (que está atualmente publicando as obras do Matheson, em um trabalho bastante competente), que trás não só o romance homônimo, mas também 9 ótimos contos de terror e ficção.

Falemos inicialmente da atração principal, que mostra quase exatamente aquilo que o título entrega: na verdade, não se trata de um homem que encolhe "tudo de uma vez", mas sim de um homem que vai encolhendo aos poucos, cerca de 3 milímetros por dia; o encolhimento não pode ser interrompido, então o destino do personagem parece ser a diminuição gradativa rumo ao desaparecimento total.

O primeiro capítulo dura apenas uma página, refletindo o estilo rápido e sem enrolação do autor, que não perde tempo com detalhes desnecessários e oferece ao leitor verdadeiras montanhas-russas construídas com palavras; em poucas frases de um suspense eletrizante, somos apresentados ao evento que irá desencadear o martírio do personagem central, Scott. Em seguida e sem qualquer tempo para respirar, o capítulo 2 começa com o personagem central já encolhido, sendo perseguido pela sua nêmese na maior parte do livro, a viúva-negra que habita o porão de sua casa; mas calma, o livro não vai te deixar no escuro sobre todo o processo de encolhimento; a narrativa alterna a luta do personagem por sobrevivência enquanto está preso em seu porão (a ameaça da aranha, a busca por mantimentos e abrigo, etc), com flashbacks mostrando como foi o andamento de sua agonia, desde o momento em que conta para a esposa que acredita que está encolhendo até o momento em que fica preso no porão (e tudo que acontece nesse meio tempo, passando pelos tratamentos médicos, a curiosidade do público em geral, os obstáculos e perigos encontrados, etc).

O Incrível Homem que Encolheu é uma história que transcende o gênero terror, contendo elementos de drama, fantasia, aventura, ficção científica, etc, etc... Eu diria que o elemento mais marcante é o terror psicológico, aquele em que acompanhamos a angustia e desespero de uma pessoa que fica o tempo todo esmiuçando cada detalhe de sua situação abominável. Scott, que tinha cerca de um metro e oitenta quando ainda era normal, aos poucos vai ficando quase da altura da esposa, que tem um metro e setenta; como a maioria dos homens, Scott prefere as mulheres mais baixas que ele, sentindo-se assim no papel de macho-dominante e podendo dessa forma exercer sua virilidade. Virilidade essa que ele vai perdendo no decorrer da narrativa, envergonhando-se à media que vai ficando menor que sua consorte; o desejo sexual continua, porém o personagem não consegue superar a humilhação de ficar gradativamente menor e mais fraco que sua mulher; embora não seja em primeira pessoa, o narrador onisciente interioriza apenas Scott, deixando dúvidas se seus pensamentos paranóicos (ele acredita que a esposa está repugnada com sua estatura, por exemplo) refletem mesmo a realidade. Assim como o personagem de A Metamorfose, Scott se torna um estorvo para sua família, não podendo mais sustentá-la e atraindo atenção indesejada.

Quando está quase do tamanho de uma criança, Scott sente na pele os perigos que adultos estranhos podem oferecer para os mais jovens; quando se torna ainda menor, um grupo de crianças pode oferecer uma ameaça real; com o tempo, até o gato da família se torna perigoso, assim como sua filha de cinco anos. Porém, talvez haja uma saída para o personagem se recuperar, se não o tamanho, talvez outras coisas importantes...

As partes que mostram sua luta no porão são um pouco menos fantásticas, mas ainda maravilhosas; basicamente um filme "O Náufrago" com um homem de poucos centímetros tentando sobreviver sozinho, acompanhamos não só suas dificuldades de sobrevivência, como também o gradativo aumento das dificuldades; afinal, em um dia ele consegue escalar um degrau; dias depois, o mesmo degrau se torna tão alto quanto uma casa. Isso é apenas um dos exemplos da jornada de Scott por sobreviência, que apesar de não ter qualquer esperança de cura (pelos seus cálculos, ele irá desaparecer em poucos dias), ainda assim ele continua lutando, sem entender o porquê de não conseguir se entregar. O aspecto psicológico é tão bem trabalhado, em tantas nuances, tantas situações diferentes, tanta riqueza, que é simplesmente impossível esmiuçar toda a história nesse blog... acho que seriam necessários vários livros para analisar a complexidade total dessa obra-prima, que termina de uma maneira simplesmente espetacular. Não é um final que vai agradar a todos, mas enfim, é esse tipo de desfecho que se torna memorável.

Não é uma história que irá causar medo no leitor (ao menos, não o tipo de medo que faz ficar acordado à noite, atento à cada som noturno), mas sim o terror causado pelo suspense quase insuportável e pelo horror psicológico, que nos deixa presos nas páginas até a última palavra. Mais do que um livro de horror, O Incrível Homem que Encolheu é um verdadeiro tratado sobre a natureza masculina, abordando toda a destruição de um macho viril reduzido à algo que odeia e que acredita ser indigno de viver como homem.

Além desse romance maravilhoso, o livro também trás os nove contos já mencionados. E caras, a maioria deles é um tesão!

O primeiro conto se chama Pesadelo a 20.000 pés, que já foi adaptado para um antigo seriado (se não me engano, foi o Além de Imaginação) e também como um dos episódios do filme Amazing Stories, com produção de Steven Spielberg. Nessa história angustiante, um homem que viaja de avião vê algo na asa, algo que não pode estar lá, mas que parece real demais para ser alucinação. Convencer a tripulação do perigo parece impossível, então talvez ele mesmo tenha que dar um jeitinho.

O Teste mostra a situação de um filho que se vê incapaz de salvar seu pai de uma séria dificuldade. Creiam, falar algo mais do conto seria estragar a surpresa de uma narrativa tocante, mais puxada para a ficção científica.

O Homem dos Feriados foi para mim o único conto fraco da coletânea, não que seja ruim, mas perde muito na comparação com os demais. A premissa é pobre demais para causar qualquer impacto.

Montagem aborda a relatividade do tempo, que parece correr cada vez mais rápido à media que envelhecemos. Cansado de esperar pelo sucesso inevitável, um escritor deseja que o tempo passe como em um filme, onde só as passagens interessantes são mostradas. Típico caso de "cuidado com o que você deseja". Muito bom.

O Distribuidor parece ter sido a inspiração de Stephen King para escrever Trocas Macabras, mostrando as maquinações de um personagem diabólico de propósitos obscuros. Novamente não posso falar mais. Novamente uma história inesquecível.

Apenas com Hora Marcada é um conto sobrenatural sobre um barbeiro e seu cliente (que fica reclamando das dificuldades), que chama a atenção pela genialidade de uma idéia simples, do tipo que faz quaquer escritor dizer "porque não pensei nisso antes?". Final surpreendente, sorriso do leitor de orelha a orelha.

A Caixa também já foi adaptado para aTV e para o cinema (mas ao que parece, o filme não é muito bom). Um homem entrega uma caixa a um casal e faz uma proposta intrigante: se eles apertarem um botão que fica dentro da caixa, imediatamente eles ganham uma bolada em dinheiro; porém, também no mesmo momento, uma pessoa que eles não conhecem irá morrer. O final é de uma ironia ímpar, nesse que é o segundo melhor conto do volume.

O pódio de melhor conto (essa disputa é entre o contos, já que nenhum faz frente ao romance principal) vai para Encurralado, que também já virou filme, mas dessa vez nas mãos de um jovem e inexperiente Steven Spielberg. Quem viu o filme sabe o que esperar, porém o conto enriquece a narrativa devido à interiorização do personagem (um homem dirigindo por uma estrada deserta perseguido por um caminhoneiro que parece querer matá-lo), em uma das melhores histórias de terror psicológico que eu já li. O interessante é notar como o desfecho é menos cinematográfico que o do filme, que adaptou o clímax para que ficasse mais emocionante (algo que Spielberg sempre faz em seus filmes, tendo como exemplos mais notáveis os finais de Tubarão e Jurassic Park); este é o perfeito exemplo de como livros e cinema são mídias distintas que precisam de adaptações quando um livro é passado para celulóide: afinal, o excelente desfecho do conto é realmente mais adequado para a narrativa escrita, mas seria bastante sem graça caso fosse seguido literalmente no filme.

Uma pena que não tenham escolhido Encurralado para fechar o volume, já que a história Xô, Mosca! é um tanto fraca, embora seu final dúbio a torne mais interessante que O Homem dos Feriados. Aqui, um homem que espera por um importante cliente em seu escritório é atormentado por uma mosca que parecer querer enlouquecê-lo. Tá, pra quem já roeu as unhas lendo sobre aracnídeos gigantes, monstros aéreos e caminhões assassinos, uma mosca é insignificante demais.

Enfim, o livro trás um romance inesquecível, sete contos maravilhosos e dois continhos meia-boca que não comprometem o conjunto, que é compra MAIS DO QUE OBRIGATÓRIA para os amantes da literatura fantástica. De fato, qualquer apreciador do gênero deveria se envergonhar por ainda não ter lido essa obra-prima! Felizmente, é fácil remediar a situação.

Está esperando o que pra ir na livraria e comprar o seu? ;)

9 comentários:

  1. Legal, Mário. Ontem mesmo eu estava fuçando a Biblioteca, relendo os textos antigos (inclusive os meus). Quanto a Pesadelo a 20.000 pés, o conto foi adaptado para a primeira versão de Além da Imaginação e depois como um dos segmentos de No Limite da Realidade (versão cinematográfica do seriado), em episódio dirigido por George Miller, de Mad Max.

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  2. Putz, eu me lembro desse conto. Me lembro também do ser arrancando partes da asa do avião em pleno vôo. Agora, se eu me lembro de algo de tantos anos atrás é porque realmente foi bom.

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  3. Olá...tenho vc em minha lista de blogs, mas pela correria de final de ano não pude passar por aqui com mais frequência.
    Gosto muito dos seus blogs !!!!!
    Aproveito para desejar boas festas e um ótimo 2011 !!!!!
    Ano que vem meus blogs terão novidades, aguarde.
    Beijo
    Até...

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  4. "Encurralado" pode ser confundido facilmente com um conto de Stephen King. Não é a toa que Matheson o inspirou. Aliás, na minha opinião, arrisco a considera-lo o melhor conto do livro superando o conto (novela) principal. Claro que não estou menosprezando O Incrivel Homem que Encolheu (que é ótimo e deve ter sido inspiração para a série Terra de Gigantes...essa é do fundo do baú). Mas Encurralado traz coisa que mais tarde foi transformado em filme, quer ver? Tire o caminhão e coloque um homem e você tem A Morte Pede Carona.

    O livro é excelente!

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  5. realmente estava procurando um livro e esse caiu como um luva XD
    bjs com sangue
    e boas festas

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  6. Mario, que resenha incrível.
    Adorei a maneira como você falou do livro. Me convenceu totalmente a comprá-lo. Já encomendei o meu na Saraiva. Só estou esperando chegar.
    Do Richard Matheson só li "Hell House" e adorei. Acho que vou gostar tambem de "O Incrível Homem que Encolheu". Já aproveitei e pedi tambem "Eu Sou A Lenda" dele.
    Mais uma vez, resenha perfeita. Muito bem feita, detalhada e cheia do que mais se precisa encontrar em uma resenha, poder de convicção e entusiasmo. Parabens!!!

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  7. também adorei seus blogs, bem interessantes!
    obrigada pelo comentário em meu blog!abs!

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  8. Caro Mario. Gostaria de vossa opinião acerca da obra de Frank De Felitta. Li 'O Demônio de Gólgota', gostei e já adquiri mais dois dele, As Duas Vidas de Audrey Rose' e 'A Marcha Fúnebre das Marionetes'. Achei Frank muito bom, meticuloso, qualidade ao nível do Richard Matheson. Sds, Angelo - Floripa

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  9. Angelo Poletto, Jornalista28 de abril de 2011 11:06

    Comentei neste espaço ter gostado muito de Frank de Felitta. Isso se deu após ler O Demônio de Gólgota e As Duas Vidas de Audrey Rose. Porém, após ler 'A Marcha Fúnebre das Marionetes', minha opinião mudou um pouco, achei o livro muito forçado, cinematográfico, quase um roteiro de filme. Muito fraco. Sobre Richarde Matheson, achei Casa Infernal excelente, porém estou penando para ler 'O Incrível Homem que Encolheu', tô achando muito cansativo.

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